Últimos Instantes

Era uma noite úmida, sem ventos. A rua dava para o rio. Literalmente, para dentro do rio. De um lado, um denso mato. De outro, o condomínio e sua moderna arquitetura. Era meia noite. Um avião cortava o céu com suas luzes e parecia não ter pressa. Não fosse uma mulher que falava ao telefone no meio daquela rua deserta que pertencia ao condomínio, a noite seria mais tranquila. Ela falava e fumava. Seu perfume se misturava com a essência do cigarro e a imagem que dela se tinha naquela escuridão intercalada com as luzes dos postes era a de uma mulher vulgar.

Vulgar.

Beatrice era isso e um pouco mais. Sua vulgaridade só era superada pela dos preços cobrados em seu movimentado salão de beleza, um de seus negócios.

Naquela noite, Beatrice trabalhava em um outro empreendimento.

– Chegando lá, meu amor, não chega falando de sexo não. Fala boa noite e deixa ela te chamar pro que for que vocês tiverem pra fazer. Ela provavelmente vai enrolar, vai querer te impressionar citando Proust em francês ou Dostoievski em russo mesmo. Finge que entendeu e aplaude. Ela gosta é de confete. Ah! Faz um favor, tenta não parecer tolo. Faz aquele ar de intelectual…

Beatrice também era dona de um serviço que fornecia amantes às senhoras de Manaus. A mulher a que se referia era a esposa de um magnata da região. Era formada em filosofia e literatura mas, no momento, o que prevaleciam eram os extintos gravados em seus genes. Era o fardo de ser humana, costumava dizer.

O diálogo dos dois continuou por um bom tempo. O mato, apesar de parecer quieto, concentrava agitações. Insetos eram os mais ativos. Algo se movimentava, cruzando aquela flora densa. Era agressivo. Cortava o que tinha pela frente. Os únicos barulhos que se ouviam eram o de sua respiração, do terçado que se chocava contra o verde e o da conversa de Beatrice ao telefone com o subordinado. Risadas, e eram dela.

O homem parou. Escondido, podia ver Beatrice. Não podia fazer nada enquanto ela não terminasse a ligação. Sentia algo passar por seus pés. Com o terçado, deu um fim ao perigo. Era uma cobra. Sua primeira vítima, mesmo que justificável. Vai que talvez ela estivesse ali para evitar o que estava para acontecer. Se era isso, a pobre criatura falhou miseravelmente. Não era dessa vez que as cobras limpariam seu nome com seres humanos.

Beatrice sentou no asfalto. Continuava a conversar. Leandro era seu subordinado favorito. Mandava-o aos serviços com aperto no coração e esperanças de que se compensaria gastando do dinheiro que ele ganhava.

O homem não perdia a paciência. Estava calmo e observador.

A chamada termina. Beatrice guardou o celular na bolsa e deita sobre o asfalto. Sua esperança era a de que veria um céu estrelado. Escuridão, apenas. Pensou em Leandro. O homem percebeu que não estava mais subordinado a um fator denunciante. Andou calmamente em direção à Beatrice. Ela acendeu outro cigarro. Queria chorar, mas o orgulho a impedia. No que ela tinha se tornado? Empresária e cafetina. Títulos nada nobres àquela menina loirinha que prestava vestibular para medicina com o único objetivo de se formar e ajudar aos outros. Aquela menina ficara no passado e o que lhe restara era viver como dava. Realmente, viver. Mesmo que a realização pessoal não se vestisse com ela antes de dormir, ela tinha de tudo. Bastava para viver, mesmo numa miséria emocional que a consumia dia após dia. O materialismo que a cercava a induzia a fingir que se encontrara. Mentiras.

O homem parou nas últimas árvores que o escondiam de uma possível olhada de Beatrice. Examinou-a melhor. Era ela. Continuou a andar. Saiu da transição mato-asfalto com calma e discrição. Andou em direção à Beatrice sem emitir barulhos. Ela estava perdida em seus pensamentos. Só notou o homem quando ele encostou o terçado em seu pescoço enfeitado. Ele a ameaçou. Se gritasse, ele a matava. Beatrice limitou-se a respirar pesado.

Sem perder tempo, o homem dilacerou o ventre de Beatrice. Ela gritou. Ele então taca o terçado em sua garganta, de forma a tornar os gritos em uma respiração ainda mais desesperada, o que tornava para ele a situação ainda mais prazerosa.

Beatrice buscava o ar mas começava a acreditar que ele não mais existia. As imagens que passavam por sua cabeça eram lembranças de um passado doce que ela se arrependia de não ter mais vivido. Lágrimas saíram de seus olhos como vapor sai de uma panela de pressão e condensa sobre qualquer região mais fria. Finalmente, liberdade. Ela gritava mas seus gritos só existiam em consciência. O homem dilacerava seu corpo. Ela queria dizer a Leandro que o amava. Mesmo que por telepatia. Se isso existisse… Leandro não a ouvia. Ele estava ouvindo uma mulher branca, de óculos e cabelos negros recitar um poema de Drummond.

O homem termina seu trabalho. O estado físico de Beatrice é indescritível. Beatrice vê a lua. Beatrice vê a lua e morre.

Fim

Críticas são aceitas.

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