Hipsteragem

O mundo indie é extremamente vasto. Divido-o em duas categorias básicas:

– A dos muitos famosos.
– A dos verdadeiros, dos quais sou fã de uma boa penca.

Explico: quando se é uma banda famosa, perde-se a espontaneidade. É incrível. Parece que muitos se esquecem da graça de se fazer música sem a ajuda de produtores de grandes artistas. Nada contra a co-criação, o problema é com quem se está criando. Um artista indie começa escrevendo e compondo sozinho ou com a ajuda de membros da banda. Quando assina com uma puta gravadora, passa a criar com o mesmo cara que produz música com o Kanye West e o estilo da banda muda para atender ao mercado.

Foi assim com fun., foi assim com Owl City. fun. transformou-se em um troço que usa auto-tune sem nem sequer combinar com a música. O Adam Young produziu um álbum, The Midsummer Station, com um estilo de música feita para grudar. Totalmente diferente de suas antigas criações, que envolviam sonhos e devaneios e tinham aquele jeito especial característico das músicas dele.

Quanto aos verdadeiros, refiro-me a artistas que mantém seu método de composição e a sua originalidade intactos mesmo após tornarem-se famosos. É o caso de Beirut, conhecida por nós brasileiros graças à minissérie da Globo, Capitu.

square-600

Zachary Condon tem o mérito de transformar Balcan Folk em algo cool. (Aliás, ele e Slavic Soul Party, mas quanto a eles, acho que é mais minha opinião do que verdade) Tem o mérito também de misturar música mexicana com chanson francesa e o já dito Balcan Folk. Suas músicas são incríveis, dramáticas e, talvez, de estilo único. Deixo-os com as próprias palavras dele: “Yeah. I really don’t do too well in a studio situation. I hate studios. They promise a lot that they can’t really deliver on, like, ‘Whatever sound you have in mind.’ Often, that’s not the case. You get the sound they have in mind. So, you don’t have room for experimentation, at least not enough.”

Suas palavras poderiam bastar para classificá-lo como genuinamente pertencente ao espírito indie, mas tem mais.

Sua gravadora, a BaDaBing Records, recede um e-mail de um fã da banda, Chris Peterson, pedindo uma cópia do DVD das filmagens que a banda havia feito com o pessoal da Blogotheque, no qual Zach e companhia toca em vários vários prédios localizados no que acredito ser a periferia de Paris. Problema: eles já haviam vendido todos os discos fazia alguns anos. Chris não deixou-se desapontar. Perguntou se eles, então, não poderiam deixar os arquivos disponíveis para download. A resposta deles? “Good suggestion…. Will look into that. Thanks!” e “Hey Chris, we just heard from La Blogotheque, and they’re fine with you sharing the video files wherever… since there aren’t any more dvd’s, I’m guessing you’ll need us to rip the files for you? Let us know if you have any expertise on how to go about that, but I’m sure we can figure it out. Sweet!” Uma semana depois, o fã recebeu da gravadora os DVDs das apresentações com uma “ordem” de disponibiliza-los, de graça, na internet.

Claro, não é nada extraordinário. Eles deixaram de vender o DVD há anos, e não estavam, portanto, perdendo dinheiro. Só que não é assim que normalmente funcionam as coisas. Em uma gravadora ou produtora grande, a resposta seriam um solene “não” e boa sorte. Qualquer tentativa em relação ao segundo pedido levaria, provavelmente, a um alerta de que a megacorporação era a dona dos direitos autorais das imagens e que seria crime qualquer tentativa de distribuição na internet não autorizada por ela. Mesmo o produto indisponível e com produção parada para sempre, a gravadora optaria pelo caminho da usura. É assim que elas são.

E são essas pequenas coisas que fazem dos indie labels os meus favoritos.

Você pode baixar o DVD Cheap Magic Inside aqui, em 3 versões (HD, mobile e .iso) direto do servidor ou de um Torrent.

Álbum: Reflexos da Noite

Maurício Caruso: Reflexos da Noite

Sou eclético. Tenho várias sensações quanto a cada tipo de música que ouço, mas algo comum a todas é a inspiração. Crio mundos conforme a banda toca, geralmente.

Acontece que a maioria funciona no meu cérebro como a proposta de redação de uma prova de vestibular. Ou como ela deveria agir, pelo menos. Só consigo escrever de acordo com o mood influenciado por elas.

Existem, entretanto, bandas que produzem músicas que, em mim, não funcionam dessa maneira. São músicas que me permitem criar conforme eu deseje, como se existissem apenas para complementar a ficção, sem exercer nela um papel de influência. Não pintam paisagens e quem as acaba pintando sou eu.

Esse é o caso do álbum Reflexos da Noite, de Maurício Caruso. Descobri o artista ao perambular pelo Heavy Rotation do Rdio e acabei por tornar-me fã.

Você pode conferir o trabalho de Maurício em sua página no MySpace. Afinal, ninguém é perfeito.

 

 

Últimos Instantes

Era uma noite úmida, sem ventos. A rua dava para o rio. Literalmente, para dentro do rio. De um lado, um denso mato. De outro, o condomínio e sua moderna arquitetura. Era meia noite. Um avião cortava o céu com suas luzes e parecia não ter pressa. Não fosse uma mulher que falava ao telefone no meio daquela rua deserta que pertencia ao condomínio, a noite seria mais tranquila. Ela falava e fumava. Seu perfume se misturava com a essência do cigarro e a imagem que dela se tinha naquela escuridão intercalada com as luzes dos postes era a de uma mulher vulgar.

Vulgar.

Continuar lendo